Acabou a aventura, acabou o tesão

Fazer a ligação era das tarefas que ela mais gostava. Caminhava a distância de uma quadra e meia até o telefone público e discava a cobrar. “Nove nove…”, dizia os números em voz baixa para mantê-los sempre bem guardados na memória, já que não os tinha anotados em lugar algum. Lhe excitava toda essa precaução, pequeno momento em que atuava o papel de audaciosa. Ele atendia e ela passava uma das três senhas para saber se havia disponibilidade para um encontro na mesma tarde.

O corte. Ou ela era a secretária da alfaiataria pedindo para que ele fosse até lá ajustar alguns cortes de novos ternos, ou ela era a mocinha do açougue questionando se havia interesse por parte dele de experimentar alguns novos cortes ou, seu preferido, era a responsável pela cobrança da companhia de energia elétrica que atribuía à ele uma conta não paga em aberto e que, caso não fosse quitada a dívida, ela precisaria realizar o corte da energia. Gostava dessa última por imputar no convite secreto a culpa, e sempre viu tesão e penitência caminharem lado a lado. Discava as teclas com as pernas já meio bambas em ansiedade e tentava se controlar lendo os recados de sacanagem e putaria que deixavam na parte interna do orelhão, recadinhos escritos com caneta ou panfletinhos de prostitutas.

Ele atendia, dizia que, sim, realizaria o pagamento ou a degustação de novas carnes ou então que deixaria ela tomar novas medidas do corpo dele e desligavam. Estava marcado o encontro para a hora do almoço, momento em que ela podia sair da loja de roupas caras que trabalhava como vendedora para ir com ele até o motel mais próximo. Para ele funcionava muito bem também, porque poderia dizer à mulher que ainda estava em reunião importante e seus dois filhos ainda estavam em aula, deixando o celular de lado por alguns instantes. E transavam um sexo atlético, uma sujeira elástica e urgente. Trocavam poucas palavras e muitos olhares, baseavam-se na comunicação do tato, apertando e puxando e arranhando.

O silêncio causava nela ainda mais sensibilidade e apetite, como se o perigo estivesse mesmo ali, entre as quatro paredes mal decoradas do alugado. O risco fazia ela respirar diferente, a ameaça deixava seu corpo crispado e alternando contrações e expansões com intensidade. Gozava fácil demais sob essas circunstâncias.

E, depois, curtia a culpa dele em estar lá. Ele dizia sempre adorar os encontros, mas se martirizava por enganar a esposa e, mais ainda, por deixar a namorada na mão, sempre necessitado dessas manobras para encontrá-la. Ela escutava tudo aquilo e sentia o corpo esquentando mais uma vez. Ele repetia ladainhas de que precisava tomar uma atitude, falar finalmente com a família, abrir caminho para uma aproximação não delituosa com ela. Quando mais ele se desculpava, mais ela serpenteava solta pela cama para cima dele.

Mas naquele dia não teve lamento, mas comemoração. Após darem uma, ele acendeu um cigarro e passou para ela tragar. Enquanto ela puxava a segunda leva de fumaça, ele botou as boas novas: “Contei tudo pra ela, Nicinha. Não tenho mais nada pra esconder. Foi um papo maduro, acabou tudo de modo bem civilizado. Vou sair de casa esta semana mesmo e, sei lá, em mais uma ou duas semanas estará tudo resolvido!”.

Ele estava empolgado demais para perceber que seu pé estava ficando gelado do contato com os pés dela que, ao escutar a euforia dele, perdeu completamente a quentura. Ele dizia, todo animado ajoelhado nu na cama de motel, que eles poderiam se ver em outros horários e em público, que poderia dormir na nova casa dele e viajariam pelo mundo juntos também. Cada esboço dele botava no corpo dela arrepios.

— Meu futuro é com você agora, não é demais?

— Eu vou mudar de cidade.

— Oi?

— Eu tenho outras coisas pra fazer lá na loja. Vamos embora?

— Como assim?

— Eu não quero mais te ver! Será que dá pra gente ir embora?

E vai para o chuveiro se lavar. Não tomar banho. Se lavar.

O amor estava em outro lugar e ninguém percebeu.

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