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Sarah #101

#101

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Flick #04 – Danke, Belirnale

dankebelirnale

Esse texto foi escrito no começo deste ano com o intuito de fazer parte da edição de nº 03 da Revista Flick.

Mais do que uma matéria jornalística, o texto a seguir pretende ser um relato de viagem em uma cidade que no mês de fevereiro respira cinema e encanta a qualquer um que a visita. Com um pouco mais de 3,5 milhões de habitantes, Berlim sedia pela 64ª vez um dos maiores festivais de cinema do mundo, a Berlinale, comercializando mais de 300 mil ingressos nos 15 dias no qual é realizado. Apesar da grandeza dos números e das estrelas que passam pelo festival, a Potsdam Platz, centro comercial que concentra boa parte das atividades da Berlinale, praticamente é o inverso do conceito de luxo e ostentação que é visto em Hollywood. Berlim é uma das capitais com o menor custo de vida na Europa, com alugueis baratos ainda por conta da grande quantidade de apartamentos abandonados na parte Oriental da cidade e no qual uma diária em um bom hostel custa o mesmo do que um ingresso no festival de cinema, aproximadamente 10 euros.

Em suas raízes, Berlim tenta manter um estilo de vida simples, em que no meio de uma cidade aparentemente suja e fria se encontram pessoas receptivas e calorosas. Quando desembarcamos em Berlim, eu e Mariana, sabíamos que teríamos alguns problemas como em qualquer cidade onde se é turista, principalmente na língua e o sistema de transporte. O assustador monstro da língua alemã logo é desmascarado, já que praticamente todo mundo em Berlim fala muito bem a língua inglesa; e o misterioso sistema de transporte é desvendado com a ajuda de algum berlinense que é sempre acessível e animado. Os verdadeiros problemas começam a aparecer no que parecia ser o mais certo, na compra de ingressos para o festival. Sabe aqueles 300 mil ingressos que eu comentei lá no início do texto? Pois é, eles são insuficientes para a quantidade de gente que visita a cidade durante o festival, mas para isso existe uma explicação. Por ser um festival relativamente longo, com duração de duas semanas, e para evitar que cambistas esgotem todos os ingressos de uma vez, a organização da Berlinale permite apenas que os espectadores escolham eventos que serão realizados até três dias após a compra. Quando chegamos ao check-in para as compras, todos os filmes que queríamos ver já estavam esgotados e nossa longa programação foi por água abaixo. Infelizmente, não só a nossa. Nas bilheterias do festival é comum encontrar pessoas dormindo na fila de um dia para o outro para conseguir um lugar nos cinemas.

No entanto, a chateação do ingresso dura pouco. Como um misto de festival de entretenimento e com oportunidade de negócios, na Berlinale se por um lado existe uma grande procura para ver os filmes, ainda sobram muitos ingressos para os eventos de debates sobre o mercado e oficinas de cinema. E assim, como um tiro no escuro, tivemos a oportunidade de ver uma excelente palestra no painel Berlinale Talents, que reúne jovens profissionais do cinema com ideias inovadoras, com Mahyad Tousi e Michel Reilhac. Obviamente, seus nomes não são conhecidos, mas esses dois estão por trás de interessantes projetos em filmes de sucesso. Com trabalhos em diversos formatos narrativos, Tousi foi o responsável pelo conceito inovador de crossmedia utilizado no filme The Square, documentário que concorreu ao Oscar em 2014, que conta a história das manifestações ocorridas no Egito. Tousi relata que uma das principais preocupações quando se começou a pensar na divulgação do filme foi de relacionar as pessoas que deram depoimentos durante a época das manifestações a uma realidade atual. “Em quase todos os pôster do documentário colocamos os perfis do Twitter das pessoas que participaram do filme para dar continuidade a narrativa que estava sendo contada. Não é porque o filme acaba que a história que está envolvida com ele também se encerra. As manifestações ainda estão ocorrendo e quem ver o filme e quiser saber mais sobre determinada pessoa, pode também dialogar com a história.” – disse Tousi.  Já Michel Reilhac, co-produtor dos filmes Melancolia e Anticristo de Lars Von Trier, falou sobre um aplicativo criado por ele que mescla turismo e cinema. O Cinemacity permite aos portadores de smartphones a visualização de um mapa onde se podem encontrar os locais exatos em que filmes e seriados foram gravados. Além de permitir a visualização destes produtos in loco, o Cinemacity também possibilita ao usuário realizar uma versão dessas cenas, dando algumas dicas de enquadramento e da história que foi narrada no local, que poderá ser postada em rede. O aplicativo parecia ser uma grande atração para a maioria dos participantes que assim como nós estava dividindo o tempo entre conhecer os pontos turísticos e conviver com o cinema na cidade.

Outra expectativa que foi frustrada foi a tentativa de ver o longa-metragem brasileiro de Karim Aïnouz, A Praia do Futuro, filme que participava da competição da Berlinale. Assim como outros filmes da competição, o filme brasileiro apenas teve exibições na segunda semana do festival, o que inviabilizou a nossa ida. Porém, em mais um acaso da vida, outro filme brasileiro seria exibido em um dos nossos raros tempos livres na cidade. O Homem das Multidões, filme dirigido por Marcelo Gomes e Cao Guimarães, teve sua estreia internacional na Berlinale. Em um bate papo rápido, Marcelo Gomes, que também dirigiu Cinema, Aspirinas e Urubus, revela estar emocionado por levar o seu primeiro filme ao festival de Berlim e das experiências arriscadas que envolviam o filme. Ao falar dos méritos do filme, Gomes credita grande parte deste sucesso ao trabalho do diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo. Com a escolha de um formato Academy, no qual o filme apresenta proporções quadradas, a narrativa se baseia em uma monótona história de um maquinista de trens solitário em um cenário urbano de Belo Horizonte.

Ao voltar para o hostel em que estávamos hospedados, encontramos outro brasileiro perdido na cidade. Luís Barbosa, diretor de filmes independentes na Paraíba, ganhou em 2013 o prêmio de melhor fotografia no Festival Internacional de Curitiba pelo documentário Leprosário. Como premiação, Barbosa ganhou passagens para participar de algumas programações na Berlinale. Mesmo tendo que participar de alguns eventos promovidos pela ANCINE sobre produção de cinema brasileiro, o interesse de Barbosa estava voltado para a sua paixão, a fotografia. Sem se decepcionar, o diretor paraibano participou de uma oficina sobre a estética da sombra, que oferecia um histórico sobre as “escolas” da fotografia preto e branco utilizadas em filmes japoneses, europeus e americanos de 1915 a 1950. Barbosa acabou ficando um pouco mais de tempo em Berlim do que nós e com isso aproveitou para ver algumas obras brasileiras e tomar muitas cervejas alemãs.

Para ver o último filme da minha programação, saí correndo até Alexanderplatz para ver Love Is Strange, filme americano de baixo orçamento, mas que estava no painel Panorama, uma seção especial do festival que exibia filmes com temas sociais. Como estava atrasado para o filme, entrei no primeiro elevador que encontrei e tive uma pequena surpresa por causa disso, que só iria ser explicada para mim nas apresentações que se seguiram ao final do filme. Ao dar de cara com diversos seguranças que estavam protegendo duas pessoas, tive que ser revistado para continuar a minha viagem. Uma das pessoas era Ira Sachs, diretor do filme, e o outro importante desconhecido era John B. Emerson, embaixador americano na Alemanha e que recentemente se envolveu em escândalos de espionagem da primeira ministra alemã Angela Merkel. Esclarecido o pequeno episódio de suspense na capital da Guerra Fria, acabo enfrentando um pequeno overbooking nas cadeiras do cinema. Em uma sala completamente lotada, tenho apenas como companhia nos desconfortáveis degraus um senhor que perdeu o lugar ao ir comprar um imenso copo de cerveja. Porém, o filme valia o esforço. Love Is Strange conta a história de dois homens, Ben e George (interpretados por Alfred Molina e John Lithgow) na terceira idade que decidem se casar. Não apenas com o foco no relacionamento homossexual, o filme traz ao espectador todas as dificuldades de convívio entre familiares e as questões da velhice em uma relação amorosa. Segundo Sachs, ele escreveu o roteiro baseado na história de um tio que convivia com ele na infância.

Como um resumo destes sete dias em que passamos pela capital alemã, é certo que para profissionais do cinema Berlim é uma cidade que precisa ser visitada. Muito além do que só uma competição de filmes, a Berlinale se preocupa em agradar todos os públicos recebendo filmes de todo o mundo e de todos os tipos. Painéis como o Forum e Forum Expanded são interessantes pela aproximação entre os espectadores e os realizadores, colocando produtores e atores junto com o público para debater temas relacionados aos filmes.  Generation e Teddy, são painéis que tinham filmes relacionados a infância e juventude. A sessão Retrospective leva ao público do festival filmes antigos que são restaurados para serem reexibidos. E a deliciosa Culinary Cinema leva ao público filmes que tinham alguma relação com gastronomia para que em seguida estes provassem pratos realizados por chefs de cozinha. Bem, a única tristeza que se pode ter da Berlinale é que ela termina. Mas isso logo passa quando se lembra que ela é realizada todo ano. Quem sabe no próximo ano você não estará lá!

mário

Eu vou ficando sem

eu vou ficando sem

Lógica da minha namorada

lógica da minha namorada

Pausa pra Música #02 – Top 10 Álbuns de 2014

top10music

BENJI – Sun Kil Moon |  Com nada menos que um puta domínio da arte da crônica, Benji talvez seja o álbum mais caridoso desse ano. Chega, através do lugar comum, dos sons e das declarações mais simples, ao ponto de empatia entre Mark Kozelek e seus personagens, sem nunca se poupar das dores que aparecem no processo de compreender o outro.

ARE WE THERE – Sharon Van Etten | Sharon canta o clichê de se cantar o coração, e ao compor não se esquece da força que há nisso, entregando uma versão mais composta e madura de todos os seus trabalhos anteriores.

CONVOQUE SEU BUDA – Criolo | Melhor timing do ano: Convoque Seu Buda é o álbum de uma ressaca eleitoral e de todas as insatisfações que perduram, expandindo um artista completo até o seu quase ponto de quebra. Quando Criolo fala “É o céu da boca do inferno esperando você”, o fato não tem tons de ameaça: é uma declaração triste, quase arrependida.

TO BE KIND – Swans | Revisão de que não há nada que o Swans não possa fazer, e que continue fazendo isso por um bom tempo, por favor, obrigado.

PLOWING THROUGH THE FIELDS OF LOVE – Iceage | Focando no vocal desconjuntado de um louco correndo, talvez nem dê para perceber o quão apertado e simples é o som desse novo álbum do Iceage. E focando no melodrama (pô, olha o título desse negócio!) e na falta de compostura, talvez também fique difícil de notar a diversão despretensiosa que as formas dessas músicas assumem. Mas ao olhar por fora, ao olhar com jeito miúdo, Plowing Through the Fields of Love é a nossa melhor esperança de um Puta Álbum completamente ignorante ao fato de que é um Puta Álbum. Beleza inconsciente.

RUN THE JEWELS 2 – Run the Jewels | Ríspido o bastante para não ser água com açúcar, acessível o suficiente para não amargar e desmoronar com o próprio peso. Esse álbum pena a sair da minha cabeça — e não vejo um futuro próximo no qual isso vai afrouxar.

HOW TO LEAVE TOWN – Car Seat Headrest  |  “Last night I dreamed Obama came to my birthday party and they made a giant banner of my face – I wished they hadn’t used the driver’s license photo, but it’s alright, it’s alright”.Parece tão meticulosamente engatilhado que quando atinge seus auges torna o quase lo-fi num espasmo lindo e superproduzido. Isso sem falar em toda a situação melodramática-existencial das letras: nunca filosofia de boteco soou tão bem e tão gigantesca.

CRÔNICAS DA CIDADE GRANDE – Miguel Araújo | Coisinha pequena, singela, cheia de balançar — daqueles achados que você sorri bobo e que vai e volta percebe como é foda. Bateu fácil no vácuo que 2014 teve ao falar de amor nessa língua, e de cruzar distâncias para se permitir ser sincero. É de admirar qualquer trabalho que hoje em dia não tenha uma gota de cinismo. Crônicas da Cidade Grande preenche perfeitamente a cota.

NIGGAS ON THE MOON – Death Grips | Samples da Bjork e tudo, a primeira parte do álbum duplo The Powers That Be é o melhor trabalho que o trio já lançou. Marca todas as caixinhas do que você “espera de inesperado” em um álbum do Death Grips, meio que sem se importar em ser um estranho para si próprio.

ST. VINCENT – St. Vincent | Annie Clark disse que queria fazer um álbum para se dançar em um funeral. E era, no fim, um funeral para o que pensavam dela: tchau a cantora-compositora comedida e seus surtos de distorção em arranjos pomposos, olá uma semi-alien estratosferando na influência do David Byrne, Bowie-toda na sua cantoria sobre distopias de amor.

mateusb

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